Terra Goyazes


28/05/2011


 

Réquiem para Higienópolis City

 

 

 

charge: Aroeira

 

 

 

Uma Incelença

de Nosso Sinhô

Veste esta mortalha

Foi Deus quem mandô

 

 

 

Vocês estão mortos. Ou para usar idioma tão sonoro aos vossos ouvidos refinados: You're dead guys! Começaram a morrer em 2003, quando o Barbudo tomou posse. No início, nem desconfiaram que era a morte. Não. Dariam um jeito de cortar as asinhas do Barbudo e fá-lo-iam beijar a cruz do Deus-Mercado. E apesar disso, o Barbudo resistia a se enquadrar. Então, com toda a elegância e parcimônia acionaram o dândi Dantas, o OVS (olhos verdes sensuais), o Brilhante, o Pode-Tudo, o Manda-Brasa, o Rompe-Racha (com sua licença, mestre Rosa). E aí veio o Mensalão. Que coisa mais bonita de se ver: injetaram nas veias de Delúbio o sangue azul usinado nas entranhas mais nobres do tucanato e vertido pelos vasos fartos de Marcos Valério, e corromperam desde a medula o mandarinato petista deslumbrado com o acesso aos templos da elite! Agora sim, o Barbudo veria a cor da rosa e o preço de desafiar os donos do Brasil. Sim, porque o Brasil estava predestinado, desde sempre, a ser de vocês! Que outro segmento social vergava a espinha para o Império com tamanho charme? Que outros acadêmicos agradavam tanto os think thanks do Pentágono, como FHC e outros pensadores tucanos? Que outros chanceleres tiravam os sapatos na Aduana americana com tanta desenvoltura e esmero?

 

Naquele fatídico ano de 2005 vocês perderam a embocadura, eu sei. Vocês lamentam isso até hoje, e, veladamente, jogam toda a culpa nas costas de FHC, seu filho mais ilustre. Era para se ter liquidado com o Barbudo sem dó nem piedade, impeachmando-o liminarmente. Mas não, foram ouvir FHC e seu méthode peu à peu. Deram com os burros n'água! Descobriram isso, amargamente, quando viram Alckmin vestir camisetas da Petrobrax, êpa, Petrobrás, dando loas ao BB e Caixa, num arroubo de estatismo tardio que mataram-vos de desgosto. É, vocês sofreram muito com aqueles dias de ira. Mas o vosso sofrimento aumentaria exponencialmente com a reeleição do Barbudo. Hordas de farofeiros invadiam vossos aeroportos, debutando, quais pinto no lixo, nas viagens aéreas! Oh, quanto sofrimento, disputar com aquela bulha de noviços um espaço na fila do check-in! Atroz sofrimento se repetia, inclusive, nas viagens internacionais, ora veja!

 

Mas como nada está tão ruim que não possa piorar, vocês descobriram que o doce sentimento de exclusividade havia acabado. Além dos aeroportos abarrotados com os noveaux voyageurs que o Barbudo despejava no Mercado com suas toscas políticas distributivas, vocês descobriram-se, de repente, cercados num trânsito infernal, caótico e entupido de carros mil cilindradas, dirigidos perigosamente por um bando de pobres, recém-saídos do lumpesinato e buzinando alucinados e conspurcando as vias, até então, palco de um tráfego singular de mercedez, BMWs, Maseratis e Jaguares. Oh, quão difíceis aqueles dias! Vocês devem ter entupido os consultórios dos analistas de Higienópolis, nessa época infausta. Reportou-se, inclusive, alguns suicídios naqueles tempos bicudos. Sem contar a escassez de material de construção, todo ele sugado para a construção dos puxadinhos da pauvreté sans culotte!

 

Não sei se foi ai, nesse espaço-tempo tão ruinoso, que vocês tiveram a brilhante ideia de terceirizar para a grande mídia a tarefa de fazer oposição. Desacorçoados (que palavra) com a inépcia de seus representantes, vocês delegaram à imprensa a tarefa de combater o Barbudo apedeuta e seu partido vermelho, que haviam desarranjado um arranjo social que funcionava com perfeição, há séculos. Em 2006, operou-se um teste singular, no episódio do dossiê dos aloprados. Ali, vocês jogaram um pedaço de carne sanguinolenta para a matilha da mídia, e viram, satisfeitos, que era bom. À inaptidão e incompetência de PSDB, DEM e PPS, vocês responderam com uma sacada genial: a imprensa, concessionária de espaços públicos e interesses privados, tornava-se a operadora política de fato, e partia para cima do Barbudo e sua corja, de maneira muito mais expedita e resoluta. Foi um achado, cochichavam vocês em seus petit comité na praça Vilaboim. E descansaram no sétimo dia, com um cálice de chardonnay, que ninguém é de ferro!

 

Mas agora, passada a borrasca da campanha de 2010, onde vocês jogaram o tudo ou nada, vocês se perguntam: o que fizemos de errado? Fizeram Serra abraçar a escória dogmática das igrejas católica e evangélica e pregar um terrorismo religioso sem precedentes e mesmo assim a fantoche de saias do Barbudo levou a melhor! Fizeram Serra prometer à Chevron que, se eleito, entregaria o pré-sal para as petroleiras internacionais, a ver se cativava um apoio mais explícito do Império! E nada! O que desandou? Transformaram a mídia, de incipiente parceira a agente política agressiva e feroz, em vossa trincheira principal e... nada!

 

Para desalento de vocês, mesmo o que era muito ruim vai se tornando insustentável. Após a posse de Dilma Roussef no cargo de presidente, as legendas de oposição, que amargaram grave redução numérica no Parlamento, entraram em um processo de liquefação orgânica e doutrinária sem precedentes. Isso acendeu o vosso sinal vermelho de alerta e de seu quartel-general, FHC deu o brado retumbante: Façam alguma coisa! E a coisa está sendo feita: vazados por um secretário serrista da prefeitura de São Paulo, dados sigilosos de uma empresa de Antônio Palocci vieram a furo e daí seguiram o esquema costumeiro: um dos veículos de mídia é escolhido para ser o propagador, divulga a notícia, editada ao modo do freguês, os outros veículos vem atrás, repercutindo, os colunistas bate-paus deblateram, apopléticos em suas colunas, e, ao fim e ao cabo, um parlamentar da oposição corre em desabalada carreira, a colher assinaturas para uma CPI.

 

Esse roteiro, verdadeiro modus operandi da oposição, é repetido desde 2006, sem sucesso. O que vos leva a supor que, agora, dessa vez, dará certo? O que fez Palocci diferente de Malan, Pérsio Arida, Ricúpero? Nada. Até Maílson da Nobrega, verdadeira nulidade em termos acadêmicos e econômicos, defende o leite das crianças vendendo consultoria. Então, vocês apostam que, revigorados por uma mídia muito mais virulenta, agora a coisa vai? Nada leva a essa direção, lamento vos dizer. E mais: liberado do mandato presidencial e transformado num Ubermensch (aquilo que não mata, me fortalece), Lula está aí, com a musculatura tesa e dentes afiados, pronto a lhes morder o calcanhar.

 

Aceitem o fato: vocês estão mortos. Nem mais uma quartelada decente vocês podem dar. Os militares, hoje cientes que sempre fizeram o serviço sujo para vocês, dessa vez se negam a fazê-lo. Sem contar que as vossas proposições entreguistas, no que toca ao petróleo e outras jazidas minerais, incomodam a cada vez mais militares, majoritariamente nacionalistas. Enfim, aceitem que estão mortos. Aceitem que a mídia, a vossa parceira de infortúnios, outrora detentora do poder de alçar e depor presidentes, está acabada, reduzindo-se a quatro grandes (ainda) grupos midiáticos e uma meia dúzia de colunistas aloprados, que resistem furiosos, relembrando como era belo e doce o mundo, antes de ser corrompido pela pobraiada emergente. Vocês subestimaram a internet. Subestimaram a Blogosfera, como o agente do novo; como o novo instrumento de poder autóctone, gerado a partir de um teclado e de uma ideia. Um pobre com um laptop na mão é uma desgraça para vocês! É um Glauber Rocha virtual, a fazer mais estragos que Terra em Transe!

 

Portanto, repito: vocês estão mortos! E nada do que fizerem, mudará esse axioma!

 

 

Higienópolis jamais será a mesma!

 

 

Trail's end for you!

 

 

 

Alberto Bilac de Freitas

 

Escrito por Alberto Bilac de Freitas Nobre às 19h06
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