Protógenes e a missão
*Por João Vergílio G. Cuter
É fácil gostar do juiz Fausto de Sanctis. Ele não erra. Por mais que o ministro Gilmar Mendes o provoque, por mais que os advogados de Dantas lhe ofereçam ocasião para um deslize, ele não se desespera, não dá um passo em falso, não deixa que o ser humano se sobreponha ao cargo. Jamais escreveria uma carta aberta ao presidente Obama, sonhando com uma repercussão internacional que ele sabe perfeitamente que não existirá. O professor Pasquale (ou seu Ersatz) jamais catariam um errinho de português em seus despachos. Sabe sinalizar, nas entrelinhas de seu texto, o pano de fundo teórico de suas decisões, obrigando Gilmar Mendes a também ter que explicitar as suas, quando o combate. Leva o debate para um plano no qual um simples pé na bunda seria visto por todos como prova, não apenas de truculência, mas também de despreparo. Além disso tudo, é incorruptível. Quem não admira um homem assim?
Protógenes Queiroz não é tudo isso. Foi apenas um excelente delegado – um dos mais conceituados dentro da Polícia Federal. Quando falou a respeito da máfia chinesa no Brasil, Misha Glenny, um dos maiores jornalistas em atividade de todo o mundo, rasgou elogios à sua atuação no caso. Obstinado, dedicava tempo integral aos casos sob sua responsabilidade. Seus arquivos pessoais, criminosamente devassados ao público, mostram bem isso. Convencido de que o esquema de Daniel Dantas estendia-se à imprensa, passou a fazer um acompanhamento diário dos jornais, anotando, para uso estritamente pessoal, todo e qualquer indício de participação. Estava na pista certa, e teria sabido separar o joio do trigo, caso o inquérito que conduzia não tivesse sido abortado pelo vazamento, obrigando-o a produzir um relatório a toque de caixa, juntando de maneira um pouco caótica as evidências que tinha colhido até ali. Sabia do poder de corrupção de Daniel Dantas, e sentia na pele, a cada obstáculo que se interpunha em seu trabalho, a presença desse poder no seio da própria corporação em que trabalhava. Resolveu unir-se ao único homem em quem realmente confiava – o delegado Paulo Lacerda, atualmente exilado em Lisboa. Aproveitou-se das brechas da lei para criar uma equipe de funcionários da Abin que lhe permitisse levar adiante o trabalho distribuindo tarefas e mantendo o controle da operação. Fez o que pode para honrar seu cargo.
Voltaram-se contra ele os quatro poderes da República. No executivo, Nelson Jobim; no Legislativo, uma verdadeira tropa de choque, capitaneada por Arthur Virgílio e Raul Jungmann; no Judiciário, ninguém menos que o presidente do Supremo Tribunal Federal; na imprensa, a revista Veja, o Estadão, a Folha e a Rede Globo. Todos unidos contra um delegado, golpeando-o diariamente, sem piedade, na mais poderosa campanha contra um indivíduo a que já tive a oportunidade de assistir.
Não é fácil, mesmo, gostar do delegado Protógenes Queiroz. Tem o estilo e o português claudicantes dos inquéritos policiais. Mistura citações que traem essa falta erudição que tanto irrita os intelectuais de Higienópolis. No olho do furacão, às vezes mostra todo o pavor que qualquer um de nós sentiria se estivesse na situação que ele teve que enfrentar, e que agora, com sua demissão, chega ao desenlace. Alia-se à esquerda mais atrasada do país, deixando nas mãos de seus adversários a acusação fácil de que agia movido por paixões ideológicas. Joga de guarda aberta, movido por uma crença quase messiânica no poder da verdade. Às vezes, mete os pés pelas mãos.
Apesar de tudo isso, eu o admiro acima de qualquer outro brasileiro, hoje. Ele é, para mim, o símbolo do homem honesto, incorruptível, capaz de enfrentar o mundo pelos ideais que professa – tudo isso que uma sociedade desossada, movida pelo interesse, nos ensinou a desprezar. Tivesse aceitado aquela dinheirama que lhe foi oferecida, estaria hoje confortavelmente sentado em sua sala, com ar condicionado, salários pagos pontualmente, recebendo homenagens, promoções, tapinhas nas costas, risadinhas cúmplices. Optou pelo Calvário, e ficou sozinho, entregue a seus carrascos. A hipocrisia nacional cairá sobre ele na forma de comentários sóbrios, editoriais sensatos, opiniões abalizadas expressas no melhor português, num estilo impecável. Há um clima de alívio no ar. O monstro está no chão, derrotado, imóvel. Os computadores de Daniel Dantas são mesmo indevassáveis, e todos estão perfeitamente avisados daquilo que acontece a quem tem a ousadia de tentar devassá-los. De agora em diante, todo aquele que quiser colocar seu dever acima das conveniências, estará na obrigação de se perguntar, primeiro, se é suficientemente perfeito para enfrentar as consequências de sua temeridade. Quem se habilita?
Alberto Bilac de Freitas



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